A postura da prefeita de Gandu, Daí de Léo de Neco, diante da crise enfrentada pelos produtores de cacau do Sul da Bahia revela uma contradição que não pode ser ignorada.
Durante as manifestações dos cacauicultores, que reivindicavam atenção diante das sucessivas quedas no preço do cacau e da desvalorização do fruto, a gestora fez questão de marcar presença, posar como defensora da classe e se projetar politicamente a partir da dor e da indignação dos trabalhadores do campo.
O momento, que deveria ser de compromisso e responsabilidade, foi transformado em palco de autopromoção.
Dias depois, porém, veio a incoerência. A prefeita teve a oportunidade concreta de representar os interesses dos produtores em um espaço de poder real: esteve frente a frente com o presidente Lula, durante um evento em Salvador, onde inclusive teve direito à fala.
Era o cenário ideal para levar a pauta dos cacauicultores, dar visibilidade nacional à crise do setor e cobrar políticas públicas que socorressem quem sustenta a economia rural da região.
No entanto, a oportunidade foi desperdiçada. Em vez de usar o espaço para defender os produtores que dias antes dizia apoiar, a prefeita, que em seu discurso ainda chegou a dizer que nasceu na roça, optou apenas por fazer declarações de exaltação pessoal ao presidente, sem qualquer menção à causa do cacau, sem qualquer pedido, cobrança ou reivindicação em favor da classe produtora. O silêncio sobre o sofrimento dos cacauicultores foi tão eloquente quanto simbólico: quando mais precisaram de representação, ficaram sem voz.
É válido que um gestor público exalte líderes políticos que admira, mas a prioridade de quem governa deve ser o povo que representa. Entre elogios e declarações pessoais, caberia — e era esperado - que a prefeita chamasse a atenção do presidente para a crise dos cacauicultores, a mesma causa que dizia defender.
Mais grave ainda é que essa postura reflete a prática da grande maioria dos políticos: usam as lutas populares como vitrine, mas se ausentam quando surge a chance real de transformar discurso em ação. Os produtores de cacau não precisam de discursos vazios, e sim de compromisso e representação verdadeira.