segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Opinião: Bolsonaristas e lulistas fazem teste nas ruas de Salvador para simular termômetro eleitoral

Por Fernando Duarte

A Bahia tem bolsonaristas. Porém eles não são o mesmo volume de apoiadores da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). É certo que essa análise tem por base uma restrição geográfica limitante: Salvador não é a Bahia. No entanto, as mobilizações do final de semana resumem bem o posicionamento político de parcela expressiva da população baiana.

No sábado, o senador Flávio Bolsonaro (PL) arrastou uma multidão à Barra. O ato, capitaneado por figuras como João Roma, Diego Castro e Sandro Filho, foi marcante para um território tradicionalmente associado ao lulismo. A adesão formal de ACM Neto e Bruno Reis nesse segundo turno explica, em parte, as impressionantes imagens em Salvador. Porém, é preciso ponderar que, tal qual as mobilizações da esquerda, o "voluntariado" da participação deve ser avaliado de maneira parcial - há registros de comissionados sendo forçados a participar, com ameaças de uma secretária de segundo escalão que se considera maior que os pares.

O título de Cidadão Soteropolitano a Flávio Bolsonaro, proposto por Cezar Leite (bolsonarista de quatro estrelas), foi entregue em meio a um entrave jurídico. Se alguém pode dizer que saiu maior após a visita do senador à capital baiana, o vereador merece um destaque maior. Do trio, as falas foram para convertidos, como esperado, e a inusitada ausência inicial de Sandro Filho no espaço VIP é um retrato da lógica controversa do "você sabe com quem está falando". Deputado federal do PL mais votado da Bahia, o mais jovem da história, Sandro foi excluído da área destacada. Corrigida a falha, ele foi incorporado ao grupo, como se nada tivesse acontecido.

Salvador é mais lulista. A Bahia é mais lulista. Quem diz isso são as urnas. E, mesmo que a extrema-direita insista no contrário, há uma lacuna grande de espaço para fazer frente à diferença que o petista obtém historicamente por essas bandas. E olha que, agora, a extrema-direita conseguiu incorporar a "direita limpinha" no esforço para voltar ao poder.

Ainda que o sábado tenha sido marcante na Barra, o domingo não pode ser desprezado. Sem Lula ou figurões petistas, artistas baianos fizeram um auto-proclamado "ato em defesa da democracia". Daniela Mercury liderou, tal qual já fizera em 2022, uma ação da classe artística em prol da candidatura do PT. As críticas foram as mesmas de outrora: apelo da música para atrair público, "showmício" disfarçado de ato voluntário e tantos outros esforços para deslegitimar o engajamento. Olhando para além dessa perspectiva reducionista, o circuito tomado exclusivamente de amarelo no dia anterior, foi tingido também com tons avermelhados. Ainda assim, após o apelo do "Exército do Lula", foi possível identificar a reapropriação das cores da bandeira brasileira por simpatizantes da esquerda. Daniela, Gilberto Gil, Russo Passapusso, Rachel Reis e Liniker não esconderam lado - e já o tinham feito anteriormente -, diferente de muitos bolsonaristas baianos que "saíram do armário" após o primeiro turno. O encontro na Barra, em defesa do projeto de reeleição de Lula, deu uma dimensão do poder de mobilização que a esquerda possui quando o "calo aperta". No próximo dia 25, será possível medir se Lula conseguiu ampliar o percentual em Salvador ou se Flávio Bolsonaro, o Bolsonaro Similar, conseguiu capitalizar algo mais que boas imagens para redes sociais.

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